3.9.09

Coincidente

Mais de dois mil anos solares depois da vinda do Cristo, os homens ainda matam uns aos outros por causa de terras, santas ou não. Todos os dias, sem perdão. Até mesmo numa quinta-feira. Mesmo chovendo.
Enquanto isso, no Brasil, uma Carolina adia a vida. Outra aceita seu destino, em uma Alemanha já sem muro. As duas sentem preguiça, simultaneamente. Depois do almoço, Carol lava os pratos e as mãos, com sabão neutro e água corrente.

12.8.09

Tejo (ou Represa)

— Teje preso.
— Não Tejo.

11.8.09

Né?

Metamorfose

Era uma vez, duas, três, um escritor que acharra bonito aquilo de ser. E nisso de tanto achar, mesmo sem procurar, acabou virando barata. O sucesso foi tamanho, que passou a mudar de cara todo dia: depois, de barata virou pó, de pó virou desejo, desejo virou professor, de triste virou tumor. Mas passou. Virou fama, virou noite; virote com a namorada: muito depois de pai e avô, tornou-se tio. Aí desandou. Virou amor, de terceira margem do rio. Desescondeu-se, mas fracassou. Ou fraco, ou aço. Quase um ano depois, virou coruja. Senhora. Serpente. Princesa. Surpresa: secou.

Virou ameixa.
A gueixa,
a queixa.

Ah... deixa.

xxx

Joanoca diz:
palavra é punheta alfabetizada

1.8.09

anistia - couro esquecido


A Anistia faz 30 anos. Há três décadas, o então presidente João Figueiredo assinava a Lei Nº 6.683, concedendo Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Naquele 28 de agosto de 1979, mulheres e homens, intelectuais e religiosos, estudantes e operários, camponeses e artistas, exilados e familiares de presos políticos – e dos mortos e desaparecidos – suspiraram aliviados. Era o início do fim da ditadura militar (1964-1985) no Brasil.
Faz 30 anos também que o artista plástico sergipano Bosco Rolemberg deixou o pavilhão do Complexo Presidiário Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Durante quatro anos e nove meses, foi lá – nas celas da prisão – que ele libertou de forma mais intensa seu potencial artístico e de resistência ao regime autoritário.
Com uma ponta incandescente, pirogravou no couro tudo o que as suas retinas tinham presenciado durante os anos de clandestinidade nas fábricas do ABC Paulista e nos canaviais pernambucano. Cenas de luta social, de resistência popular, inspiração de telas que retratam um dos períodos históricos mais duros do país.
Agora, a exposição Anistiados resgata dez dessas telas. Desse couro esquecido.
A coletiva liberta também a palavra e o olhar de dez artistas que toparam o desafio de desencouraçar as histórias desses quadros. Dessa geração. Desse Brasil.
São crônicas, minicontos, cartas censuradas, bilhetes perdidos, verdades inventadas, palavras caladas. Liberdade de criação, suada, na parede. Vozes antigas, gentes de hoje.
O tema é histórico e atual. Há uma Comissão de Anistia, ligada ao Ministério da Justiça, avaliando e executando os casos de indenização dos brasileiros que, de uma maneira ou de outra, tiveram suas vidas marcadas pela ditadura militar. Quatrocentos e vinte e seis deles ainda permanecem na lista de mortos e desaparecidos.

Couro fede, fere. Descapelar memórias, também.
joana côrtes
curadora

P.S._No Aurélio, Anistia vem do grego ‘amnestia’, que quer dizer esquecimento. Para uns, anistia quer dizer perdão geral. Para outros, liberdade. Anistia tem idade?

5.6.09

Crônica

Laura e Júlia nasceram, cresceram, floresceram. Uma dançava, a outra sorria. Quando cheguei à rua Alfredo Chaves, elas já se amavam. Cozinhavam juntas, comiam se olhando nos olhos. Depois, assistiam ao futebol, abraçadas. Queriam ficar juntas para sempre. Laura se perguntava como seria quando fosse ter um filho.

E dormia, sorrindo, no colo de Júlia.

31.5.09

Perdas enganos

(na oficina do Carpinejar. Só vou guardar porque ele botou o dedo.)

Perdi minha caneta Bic duas cores
no Boteco da Salvação, em Botafogo.
Desde então, tudo que eu bebo fica monocromático.

14.5.09

Elogio literário

"Isso é a melhor coisa que já li na sua vida."